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L a m b e t a S/a. | |||||||||||
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A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, de Marcelo Rubens Paiva Ao contrário da crônica, “O amor acaba”, de Paulo Mendes Campos, Marcelo Rubens Paiva, autor de “Feliz Ano Velho” lançou no final de novembro seu sexto romance, “A segunda vez que te conheci”, no qual narra o reencontro, depois de anos de separação, do jornalista Raul com a filósofa Ariela. Entre o abandono e o reencontro, Raul casou e separou de Fabi, melhor amiga de Ariela, perdeu o emprego na importante revista em que trabalhava (substituído por um talento mais jovem) e enveredou pelo ramo do agenciamento de garotas de programa. “Ariela começou a me fazer falta dois segundos depois que saiu da garagem. Ariela era tudo na minha vida. Com sua paciência e didatismo. Sempre disponível. Sempre apaixonada. A vida dentro de casa era o que havia de mais importante para ela, que não fazia questão de trabalhar. Ariela queria paz. Não tinha ciúmes da agitação da minha vida. Não competia. Era tão sábia, superior a todos. Me dava conselhos, corrigia meus textos. Me botava pra cima. Coloquei tudo a perder.”
O amor realmente acaba? É que o talentoso Marcelo Rubens Paiva, aos 49 anos, em minha opinião, um dos melhores escritores desta geração tenta responder. Quase um roteiro de cinema pronto ou uma peça de teatro, tal o predomínio dos diálogos, rápidos e bem construídos, “A segunda vez que te conheci” é também um retrato, ainda que inacabado, de um certo ambiente jornalístico que o autor conhece bem. Reflexões, pouco edificantes, sobre este mundo jornalístico integram a obra. Todos seus romances têm finais bem surpreendentes. Este último comprova que uma boa idéia, pode se tornar uma boa obra. A idéia de que podemos amar uma pessoa repetidamente é um dos temas do livro. Mas será que isso é verdade? E a admiração pela companheira (o)? Acaba-se? Ou renova-se? São reflexões que ele nos traz de maneira simplista e precisa.
“O amor não acaba. Deixa rastros. Na esquina em que se beijaram uma vez, lá está ele, na poeira suspensa, na revolta da memória. Na solidão do domingo, lá vem ele, volta com lamento, um desespero. No teatro, no palco de história de amor, no cinema, na tela com beijos e risos, na tevê, que inveja, já tive um amor igual. Onde ele se escondeu? Na sorveteria, o amor volta em lembranças. Porque aquele sabor era o preferido dela, aquela cobertura era a preferida, aquela sorveteria era a preferida, aquela esquina, bairro, clima, lua, aquele mês era o preferido dela, a temperatura, aquele programa de fim de tarde e aquele horário sem planos para a noite. No elevador, quantas saudades daqueles segundos em silêncio, presos na caixa blindada, vigiados por câmeras camufladas, loucos para se agarrarem, apertarem todos os botões, tirarem a roupa, riscar nas paredes: ‘Eu te amo’. Não se tem saudades do que não se ama.” Entretanto, não obstante a tudo: lembranças, saudade, esperança, etc., o amor quando nos dá possibilidade de segunda chance não pode ser desperdiçado. Se vai dar certo... não sabemos. É uma verdadeira loteria! Ponto?!? Escrito por Luciana às 13h49 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O AMOR ACABA, de Paulo Mendes Campos O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. O amor acaba: crônicas líricas e existenciais. 2a ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 21-22. Escrito por Luciana às 13h07 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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