L a m b e t a S/a.



BRASIL, Sudeste, Mulher, de 26 a 35 anos, Arte e cultura, Livros
MSN - lurg30@hotmail.com
border=0
 
   Arquivos

 
border=0
Outros sites

 Sebo Virtual
 Ler é preciso
 Professor de Inglês
 Muito Particular
 Concurso de Redação - Ler é Preciso
 Ponto Final
 Letras em Cena MASP


Votação
Dê uma nota para meu blog



border=0
 


O dom de Dom Casmurro

Não é a estória contada que faz de Dom Casmurro uma grande obra literária. O modo como é contada é muito mais importante que a estória em si, ou seja, o romance é mais importante que a trama que ele conta.

Dom Casmurro foi publicado em 1900 e é um dos romances mais conhecidos de Machado. Narra em primeira pessoa a estória de Bentinho que, por circunstância várias, vai se fechando em si mesmo e passa a ser conhecido como Dom Casmurro.

Sucintamente a estória é a seguinte:

Machado de Assis trata deste livro na subjetividade, ou seja, na opinião de um determinado personagem, no caso de Dom Casmurro.

Bentinho mora no Engenho Novo, subúrbio do Rio de Janeiro, e decide de uma hora para outra resgatar sua vida; reconstruindo sua antiga casa e relatando suas memórias.  

O Narrador-personagem mora agora na Rua de Matacavalos onde viveu toda a sua infância até sua adolescência. Sua mãe dona Glória era viúva e vivia com mais dois parentes seus. O sonho de D.Glória era colocar Bentinho no seminário, para este se fazer padre. Tudo por causa de uma promessa feita quando ainda estava grávida de Bentinho. Porém, o garoto Bentinho apaixona-se por sua amiga Capitolina (Capitu) e promete a donzela que não irá se tornar padre e que irá casar-se com ela.

Aos dezesseis anos ele é levado para o seminário e lá conhece Escobar, rapaz que ao longo de toda narração irá se tornar um alvo na mira de Bentinho.

O tempo passa e Bentinho conseguiu finalmente largar o seminário, indo então para a Europa fazer faculdade de Direito. Quando retorna ao Brasil, já feito um renomado advogado, descobre que Escobar casou-se com Sancha (melhor amiga de Capitu).

Logo após sua chegada, Bentinho e Capitu casam-se e vão morar em outra cidade. Nasce Ezequiel, que vai modificar os pensamentos de Bentinho quando, ao longo do tempo o pequeno Ezequiel vai tomando semelhanças a Escobar. 

Anos passam-se e Escobar morre o que traz tristeza e desolação a Bentinho, o que vai gerar uma série de conflitos em seu casamento. Ezequiel toma a imagem semelhante de Escobar e é aí que a possível hipótese que houve um adultério entre Escobar e Capitu vai surgir na percepção de Bentinho. 

No ápice da loucura, Bentinho decide se matar, mas o carinho fraterno por Ezequiel faz ele desistir de tamanha façanha, mas revela sem saber a Ezequiel que ele não é seu filho. Capitu ouve tal declaração e pede explicações. Logo após a declaração de Bentinho, ele e Capitu se separam.

Capitu vai para a Europa com Ezequiel e Bentinho fica no Brasil. Os anos se passam e Ezequiel retorna ao Brasil, formado e formoso, trazendo-lhe a notícia que sua mãe havia falecido e que veio visitar o pai. Bentinho fica assustado ao ver a imagem do "defunto" após tantos anos. Contudo, Ezequiel não se demora no Brasil e viaja com uma excursão de Faculdade e em um dos países que visita acaba contaminado por uma doença e acaba morrendo.

Bentinho recebe a noticia que seu ''filho'' havia morrido, mas não faz muita menção ao fato.  

No final da estória existe a questão do possível adultério. Será que realmente Capitu e Escobar tiveram relações carnais? Será que eles realmente traíram Bentinho?

Ninguém sabe. Só o gênio, Machado de Assis.

As personagens de Dom Casmurro:

O protagonista masculino pode ser acompanhado em três fases distintas: Bentinho, Dr. Bento Fernandes Santiago e Dom Casmurro.

Capitu, com seus “olhos de ressaca” e de “cigana oblíqua e dissimulada”. Inteligente, prática, personalidade forte e marcante. Personagem que acaba se tomando a dona do      romance. No final, acusada pelo marido enciumado, revela-se nobre e altiva ao não responder as acusações. O seu silêncio confere a ela grandeza e contribui mais ainda para acentuar a dúvida que paira sobre seu adultério.

D. Glória, mãe de Bentinho, cedo assume as rédeas da casa com a morte do marido, o qual deixa a família bem amparada. “Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos, velhas maneiras, velhas idéias, velhas modas. Tinha o seu museu de relíquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, umas moedas de cobre...”

Tio Cosme, viúvo como Dª Glória e Prima Justina, igualmente viúva: “era a casa dos três viúvos”.

José Dias era o agregado da família e gostava muito de Bentinho. “José Dias amava os superlativos” e usa-os com freqüência ao longo do romance, inclusive na hora de morrer quando se refere ao dia como “lindíssimo”.

Escobar, muito amigo de Bentinho. Eram colegas de seminário. Ele era casado com Sancha, melhor amiga de Capitu. Escobar revela-se um tanto quanto misterioso.

Ezequiel, arqueólogo e filho de Bentinho com Capitu, pejorativamente chamado pelo pai de “filho do homem”.

Pádua, pai de Capitu, o qual era um modesto funcionário público, e sua esposa, Fortunata, muito econômica, também forte como a filha Capitu. Padre Cabral, muito amigo de Tio Cosme, com quem ia jogar às noites.

Tempo:

Dom Casmurro foi escrito em 1900. A trajetória vai do ano de 1857 até meados da década de 1890.

Lúcia Miguel Pereira, biógrafa e estudiosa do escritor, afirma que "tal obra não poderia ter saído de tal homem", pois, "Machado de Assis liberou o demônio interior e começa uma nova aventura".

A análise de caracteres, numa verdadeira dissecação da alma humana é a segunda fase. Machado adota o realismo social, na medida em que um dos objetivos do autor é denunciar e representar alguns aspectos da vida social do século XIX, particularmente a sociedade carioca, que ele conheceu bem de perto. Não se trata, porém, de uma denúncia social pura e simples. É com ironia, característica talvez mais marcante, e de um estilo simples, conciso, limpo, livre de afetações e exageros literários, além de uma penetrante capacidade de análise psicológica de seus personagens e do próprio ato de escrever um livro.

Espaço:

A estrutura narrativa alterna a narração da ação e a reflexão sobre a mesma. Ambas tendo por palco o Rio de Janeiro do Segundo Império, pois há inúmeras referências a lugares, ruas, bairros, praças, teatros, salões de baile da cidade.

 Por outro lado, há também ligeiras referências a São Paulo, onde foi estudar Direito o ex-seminarista Bentinho, e também à Europa onde morre Capitu, e mesmo aos lugares sagrados, onde morre Ezequiel (Jerusalém).

Narrador:

Machado inventou, antes de tudo, uma voz narrativa, um ponto de vista por meio do qual se narra uma história. Essa voz é a do próprio personagem central, Bento de Albuquerque Santiago, que irá narrar, já velho (e apelidado significativamente de "Dom Casmurro"), a história de sua vida, começando por sua infância e adolescência (quando era chamado de Bentinho). O narrador, portanto, é o personagem central modificado pelo tempo.

Na narração de Dom Casmurro, o narrador-personagem, Bento Santiago, narra em 1ª pessoa a história vivida por ele próprio. É muito latente a ruptura entre a verossimilhança da história apresentada e a realidade propriamente dita, uma vez que não podemos afirmar que o narrador seja imparcial à sua história, pois os fatos são extraídos das lembranças do narrador.

Com esse artifício, Machado nos mostra, como o narrador é um personagem, toda a narrativa está condicionada à sua própria visão dos acontecimentos; o personagem faz a sua narrativa em um tempo muito posterior ao dos acontecimentos narrados.

Trata-se, desse modo, de um texto em que a realidade tem múltiplas interpretações, pontos de vista conflitantes, aberto a várias possibilidades de significados e leituras.

É o mundo visto por Bentinho, ou melhor, o mundo que ele “quis” ver ou que ele “podia” ver, segundo o filtro de seu ciúme e de sua paranóia e insegurança em relação à Capitu e seus sentimentos. O mais engraçado é que ninguém pode contrariá-lo, uma vez que todos estão mortos. A visão de Bentinho é única e exclusiva, ou seja, o narrador- personagem é sem dúvida o protagonista total desse romance, uma vez que não há como confrontar os fatos com os demais personagens.

Nesse romance podemos desconfiar, nós leitores, da verossimilhança ficcional que se instaurou por meio do narrador- personagem e sua versão apresentada dos fatos unilateralmente.

O foco narrativo em 1ª pessoa é decisivo. Há duas tendências interpretativas dominantes sobre a intensidade e a violência dos ciúmes do narrador-protagonista do romance. A primeira, mais sociológica, aponta para a situação de senhor patriarcal de Bento Santiago, cuja condição o faz enxergar a mulher como uma propriedade sua, assim como aos amigos e agregados. A segunda interpretação, mais psicológica, identifica uma insegurança paranóica e, portanto, doentia, que o faz desconfiar de tudo e de todos, até mesmo dos mortos.



Escrito por Luciana às 13h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]






Conclusão:

Como personagens centrais de uma narrativa, Bentinho e Capitu são sem dúvida, as personagens ficcionais mais fascinantes, intrigantes e complexas já criadas por um escritor.

O texto machadiano é sob todos os aspectos, uma brilhante demonstração de como a representação da realidade e o mundo é muitas vezes mais real que a própria realidade.

Capitu tem uma complexidade psicológica explícita e enigmática, pois o narrador a envolve em uma densa camada de reticências e dúvidas que a impede de se manifestar. Será ela dissimulada? Fingida? Uma moça dominada ou dominadora? São respostas que não podem ser dadas ao leitor, pois um dos aspectos centrais da narrativa é a impossibilidade de Bentinho conhecer a verdade sobre os fatos e os seres. Assim, há uma ambigüidade da narrativa, fazendo Dom Casmurro o romance da dúvida, da incerteza permanente.

O objetivo desse romance machadiano talvez seja demonstrar como somos vítimas de nossas vozes interiores e de nossa própria consciência. Também do conflito entre a aparência e a essência da condição humana. A verdade, neste caso não é objetiva aos olhos do narrador-protagonista. Lembrei-me agora daquele ditado: “nem tudo que reluz é ouro”. Assim, o que é apresentado como verdade pode não passar de um engano, de um trágico equívoco, de uma ilusão, de uma intuição “furada”.

Para a pergunta: Capitu traiu Bentinho? É inútil, portanto, respondê-la, uma vez que todas as testemunhas que dariam fim à angústia para nós, leitores estão mortas.

Sem dúvida nenhuma, esse é um clássico permanente e inquestionável de nossa literatura.

Curiosidade a parte, a Folha de S. Paulo um tempo atrás promoveu um verdadeiro Tribunal com advogados, juiz, jurados sobre essa questão da traição de Capitu e ironicamente ela foi absolvida por maioria absoluta.

É isso que é o “charme”, a genialidade da obra: significados múltiplos, pontos de vista conflitantes e várias interpretações para a mesma leitura.

Falei semana passada sobre o Centenário da morte de Machado de Assis para uma sala do 3º Ensino Médio da Rede Estadual. Contei-lhes um pouco sobre a vida e obra de Machado e ao final da aula, para minha alegria, a maioria procurou a biblioteca e retirou para ler o livro Dom Casmurro.

Ponto.



Escrito por Luciana às 13h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]






[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
border=0