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L a m b e t a S/a. | |||||||||||
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Digo adeus à ilusão um poema Escrito por Luciana às 16h23 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Mais um pouquinho da 7ª Arte: Pequena Miss Sunshine Um filme modesto pode se tornar grande. A prova é "Pequena Miss Sunshine”. Ganhador do Oscar de melhor roteiro original em 2007, a produção de orçamento minúsculo me cativou ao abordar temas pesados (adolescência problemática, fracasso profissional, homofobia, suicídio, desilusão amorosa e drogas) sem perder o senso de humor. Tudo graças a um elenco talentoso e bem dirigido, além de diálogos enxutos e precisos. O longa é um "road movie". Uma família disfuncional atravessa o deserto, em uma Kombi amarela com defeito, para levar a caçula até a Califórnia onde será disputado um concurso de beleza para crianças. No caminho, os dramas dos seis personagens se agravam, criando um clima de tensão e ânimos exaltados. Apesar da "lavagem de roupa suja" sobre quatro rodas, o filme alimenta a esperança de que a família Hoover, bem como a da platéia no cinema, tem chance de se entender e ficar unida. Ou seja, a imagem da família empurrando a Kombi não é à toa no filme dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris. Se não se agarrasse a um fio de otimismo no final da história, "Pequena Miss Sunshine" seria mais contundente ao mostrar a perversidade dos adultos em castrar a infância de seus filhos para realizar seus ideais de sucesso, fabricando uma geração de crianças plastificadas e pasteurizadas, tanto na beleza como nas atitudes para enfrentar seus conflitos. Já assisti a muitos filmes, pois amo cinema. Poucos tiveram um sabor tão especial como este. Roteiro, personagens, cenários, a Kombi, os atores, tudo maravilhosamente simples, maravilhosamente perfeito. A pequena Miss parece ser uma utopia de tão perfeita que é para o papel. O filme nos atinge em cheio, trazendo-nos a reflexão sobre nossas vidas. Gostaria de ressaltar uma cena em especial, quando a Miss toca seu irmão e o chama para voltar para a Kombi. Imperdível! Ponto. Escrito por Luciana às 20h44 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Coisas que perdemos pelo caminho Audrey Burke está em choque com a notícia que acaba de ser levada à sua porta pela polícia local: seu amado marido Brian, pai de seus dois filhos, foi morto em um ato de violência, com o qual ele não tinha nenhuma relação. Antes ancorada no amor e conforto do casamento de 11 anos, Audrey agora está à deriva. Por impulso, ela recorre ao amigo de infância do marido, Jerry Sunborne, um desamparado viciado em drogas. E, desesperada para preencher o doloroso vazio causado pela morte de Brian, Audrey convida Jerry para morar no quarto anexo à garagem da família na esperança de que ele possa ajudar a ela e suas crianças a lidar com a repentina perda. Fonte: Cine Players Halle Berry dá vida a uma personagem totalmente apática, sem expressão, sem emoção depois de perder o grande amor de sua vida - um papel que coube perfeitamente a ela. Quando ela encontra-se com o personagem do Benicio Del Toro, atuação perturbadora e magnífica fica evidente que quer ser feliz novamente e reviver a paixão perdida, apesar de toda a 'armadura' que ela mesma colocou ao seu redor para enfrentar a morte do seu marido. Ao mesmo tempo em que ele também necessita de ajuda para enfrentar os problemas com as drogas e a certa culpa que acaba tendo com a morte do melhor amigo e os erros cometidos no passado. Nesse ponto, "Coisas que perdemos..." é excepcional. Consegue ser um melodrama sem ser meloso e desenvolve um roteiro belíssimo, além do trabalho dos planos ser excelente com o abuso dos closes nos personagens - mostrando o quanto para a diretora Susanne Bier é importante se estabelecer um paradoxo entre as personagens e quem está assistindo ao filme. O filme consegue trabalhar, de uma forma diferenciada dos demais existentes, um tema tão constante em filmes dramáticos: a perda. Não é o filme da minha vida, mas me emocionou. Ponto. Escrito por Luciana às 14h49 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Artigo interessante! Vale a pena ler!Breve História de Quase Tudo
(...) Um aspecto curioso de nossa existência é provirmos de um planeta exímio em promover a vida, mas ainda mais exímio em extingui-la. A espécie típica na Terra dura apenas uns 4 milhões de anos. Desse modo, se quiser permanecer aqui por bilhões de anos, você precisa ser tão volúvel quanto os átomos que o constituem. Precisa estar preparado para mudar tudo em você - forma, tamanho, cor, espécie a que pertence, tudo - , e fazê-lo vezes sem conta. Isso é mais fácil de falar que de fazer, porque o processo de mudança é aleatório. Passar do “glóbulo atômico primordial protoplasmático” (como diz a canção de Gilbert e Sullivan) para ser um ser humano moderno, ereto e consciente exigiu uma série de mutações, criadoras de novos traços, nos momentos certos, por um período longuíssimo. Portanto, em diferentes épocas dos últimos 3,8 bilhões de anos, você teve aversão ao oxigênio e depois passou a adorá-lo, desenvolveu membros e barbatanas dorsais ágeis, pôs ovos, fustigou o ar com uma língua bifurcada, foi luzidio, foi peludo, viveu sob a terra, viveu nas árvores, foi grande como um veado e pequeno como um camundongo, e milhões de outras coisas. Se você se desviasse o mínimo que fosse de qualquer dessas mudanças evolucionárias, poderia estar agora lambendo algas em paredes de cavernas, espreguiçando-se como uma morsa em alguma praia pedregosa ou lançando ar por um orifício no alto da cabeça antes de mergulhar vinte metros para se deliciar com uns suculentos vermes. Além da sorte de ater-se, desde tempos imemoriais, a uma linha evolucionária privilegiada, você foi extremamente - ou melhor, milagrosamente - afortunado em sua ancestralidade pessoal. Considere o fato de que, por 3,8 bilhões de anos, um período maior que a idade das montanhas, rios e oceanos de Terra, cada um dos seus ancestrais por parte de pai e mãe foi suficientemente atraente para encontrar um parceiro, suficientemente saudável para se reproduzir e suficientemente abençoado pelo destino e pelas circunstâncias para viver o tempo necessário para isso. Nenhum de seus ancestrais foi esmagado, devorado, afogado, morto de fome, encalhado, aprisionado, ferido ou desviado de qualquer outra maneira da missão de fornecer uma carga minúscula de material genético ao parceiro certo, no momento certo, a fim de perpetuar a única seqüência possível de combinações hereditárias capaz de resultar - enfim, espantosamente e por um breve tempo - em você. (Disponível em: <http://paginatreze.wordpress.com/category/ciencia/>. Acesso em: 16 out. 2008). Escrito por Luciana às 12h10 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Livros proibidos Como uma das principais características do Barroco na literatura, o culto do contraste, o pessimismo e o caráter moralista, a literatura era um instrumento dos religiosos para educar e "pregar". Ponto?!?
Escrito por Luciana às 11h58 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O dom de Dom Casmurro Não é a estória contada que faz de Dom Casmurro uma grande obra literária. O modo como é contada é muito mais importante que a estória em si, ou seja, o romance é mais importante que a trama que ele conta. Dom Casmurro foi publicado em 1900 e é um dos romances mais conhecidos de Machado. Narra em primeira pessoa a estória de Bentinho que, por circunstância várias, vai se fechando em si mesmo e passa a ser conhecido como Dom Casmurro. Sucintamente a estória é a seguinte: Machado de Assis trata deste livro na subjetividade, ou seja, na opinião de um determinado personagem, no caso de Dom Casmurro. Bentinho mora no Engenho Novo, subúrbio do Rio de Janeiro, e decide de uma hora para outra resgatar sua vida; reconstruindo sua antiga casa e relatando suas memórias. O Narrador-personagem mora agora na Rua de Matacavalos onde viveu toda a sua infância até sua adolescência. Sua mãe dona Glória era viúva e vivia com mais dois parentes seus. O sonho de D.Glória era colocar Bentinho no seminário, para este se fazer padre. Tudo por causa de uma promessa feita quando ainda estava grávida de Bentinho. Porém, o garoto Bentinho apaixona-se por sua amiga Capitolina (Capitu) e promete a donzela que não irá se tornar padre e que irá casar-se com ela. Aos dezesseis anos ele é levado para o seminário e lá conhece Escobar, rapaz que ao longo de toda narração irá se tornar um alvo na mira de Bentinho. O tempo passa e Bentinho conseguiu finalmente largar o seminário, indo então para a Europa fazer faculdade de Direito. Quando retorna ao Brasil, já feito um renomado advogado, descobre que Escobar casou-se com Sancha (melhor amiga de Capitu). Logo após sua chegada, Bentinho e Capitu casam-se e vão morar em outra cidade. Nasce Ezequiel, que vai modificar os pensamentos de Bentinho quando, ao longo do tempo o pequeno Ezequiel vai tomando semelhanças a Escobar. Anos passam-se e Escobar morre o que traz tristeza e desolação a Bentinho, o que vai gerar uma série de conflitos em seu casamento. Ezequiel toma a imagem semelhante de Escobar e é aí que a possível hipótese que houve um adultério entre Escobar e Capitu vai surgir na percepção de Bentinho. No ápice da loucura, Bentinho decide se matar, mas o carinho fraterno por Ezequiel faz ele desistir de tamanha façanha, mas revela sem saber a Ezequiel que ele não é seu filho. Capitu ouve tal declaração e pede explicações. Logo após a declaração de Bentinho, ele e Capitu se separam. Capitu vai para a Europa com Ezequiel e Bentinho fica no Brasil. Os anos se passam e Ezequiel retorna ao Brasil, formado e formoso, trazendo-lhe a notícia que sua mãe havia falecido e que veio visitar o pai. Bentinho fica assustado ao ver a imagem do "defunto" após tantos anos. Contudo, Ezequiel não se demora no Brasil e viaja com uma excursão de Faculdade e em um dos países que visita acaba contaminado por uma doença e acaba morrendo. Bentinho recebe a noticia que seu ''filho'' havia morrido, mas não faz muita menção ao fato. No final da estória existe a questão do possível adultério. Será que realmente Capitu e Escobar tiveram relações carnais? Será que eles realmente traíram Bentinho? Ninguém sabe. Só o gênio, Machado de Assis. As personagens de Dom Casmurro: O protagonista masculino pode ser acompanhado em três fases distintas: Bentinho, Dr. Bento Fernandes Santiago e Dom Casmurro. Capitu, com seus “olhos de ressaca” e de “cigana oblíqua e dissimulada”. Inteligente, prática, personalidade forte e marcante. Personagem que acaba se tomando a dona do romance. No final, acusada pelo marido enciumado, revela-se nobre e altiva ao não responder as acusações. O seu silêncio confere a ela grandeza e contribui mais ainda para acentuar a dúvida que paira sobre seu adultério. D. Glória, mãe de Bentinho, cedo assume as rédeas da casa com a morte do marido, o qual deixa a família bem amparada. “Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos, velhas maneiras, velhas idéias, velhas modas. Tinha o seu museu de relíquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, umas moedas de cobre...” Tio Cosme, viúvo como Dª Glória e Prima Justina, igualmente viúva: “era a casa dos três viúvos”. José Dias era o agregado da família e gostava muito de Bentinho. “José Dias amava os superlativos” e usa-os com freqüência ao longo do romance, inclusive na hora de morrer quando se refere ao dia como “lindíssimo”. Escobar, muito amigo de Bentinho. Eram colegas de seminário. Ele era casado com Sancha, melhor amiga de Capitu. Escobar revela-se um tanto quanto misterioso. Ezequiel, arqueólogo e filho de Bentinho com Capitu, pejorativamente chamado pelo pai de “filho do homem”. Pádua, pai de Capitu, o qual era um modesto funcionário público, e sua esposa, Fortunata, muito econômica, também forte como a filha Capitu. Padre Cabral, muito amigo de Tio Cosme, com quem ia jogar às noites. Tempo: Dom Casmurro foi escrito em 1900. A trajetória vai do ano de 1857 até meados da década de 1890. Lúcia Miguel Pereira, biógrafa e estudiosa do escritor, afirma que "tal obra não poderia ter saído de tal homem", pois, "Machado de Assis liberou o demônio interior e começa uma nova aventura". A análise de caracteres, numa verdadeira dissecação da alma humana é a segunda fase. Machado adota o realismo social, na medida em que um dos objetivos do autor é denunciar e representar alguns aspectos da vida social do século XIX, particularmente a sociedade carioca, que ele conheceu bem de perto. Não se trata, porém, de uma denúncia social pura e simples. É com ironia, característica talvez mais marcante, e de um estilo simples, conciso, limpo, livre de afetações e exageros literários, além de uma penetrante capacidade de análise psicológica de seus personagens e do próprio ato de escrever um livro. Espaço: A estrutura narrativa alterna a narração da ação e a reflexão sobre a mesma. Ambas tendo por palco o Rio de Janeiro do Segundo Império, pois há inúmeras referências a lugares, ruas, bairros, praças, teatros, salões de baile da cidade. Por outro lado, há também ligeiras referências a São Paulo, onde foi estudar Direito o ex-seminarista Bentinho, e também à Europa onde morre Capitu, e mesmo aos lugares sagrados, onde morre Ezequiel (Jerusalém). Narrador: Machado inventou, antes de tudo, uma voz narrativa, um ponto de vista por meio do qual se narra uma história. Essa voz é a do próprio personagem central, Bento de Albuquerque Santiago, que irá narrar, já velho (e apelidado significativamente de "Dom Casmurro"), a história de sua vida, começando por sua infância e adolescência (quando era chamado de Bentinho). O narrador, portanto, é o personagem central modificado pelo tempo. Na narração de Dom Casmurro, o narrador-personagem, Bento Santiago, narra em 1ª pessoa a história vivida por ele próprio. É muito latente a ruptura entre a verossimilhança da história apresentada e a realidade propriamente dita, uma vez que não podemos afirmar que o narrador seja imparcial à sua história, pois os fatos são extraídos das lembranças do narrador. Com esse artifício, Machado nos mostra, como o narrador é um personagem, toda a narrativa está condicionada à sua própria visão dos acontecimentos; o personagem faz a sua narrativa em um tempo muito posterior ao dos acontecimentos narrados. Trata-se, desse modo, de um texto em que a realidade tem múltiplas interpretações, pontos de vista conflitantes, aberto a várias possibilidades de significados e leituras. É o mundo visto por Bentinho, ou melhor, o mundo que ele “quis” ver ou que ele “podia” ver, segundo o filtro de seu ciúme e de sua paranóia e insegurança em relação à Capitu e seus sentimentos. O mais engraçado é que ninguém pode contrariá-lo, uma vez que todos estão mortos. A visão de Bentinho é única e exclusiva, ou seja, o narrador- personagem é sem dúvida o protagonista total desse romance, uma vez que não há como confrontar os fatos com os demais personagens. Nesse romance podemos desconfiar, nós leitores, da verossimilhança ficcional que se instaurou por meio do narrador- personagem e sua versão apresentada dos fatos unilateralmente. O foco narrativo em 1ª pessoa é decisivo. Há duas tendências interpretativas dominantes sobre a intensidade e a violência dos ciúmes do narrador-protagonista do romance. A primeira, mais sociológica, aponta para a situação de senhor patriarcal de Bento Santiago, cuja condição o faz enxergar a mulher como uma propriedade sua, assim como aos amigos e agregados. A segunda interpretação, mais psicológica, identifica uma insegurança paranóica e, portanto, doentia, que o faz desconfiar de tudo e de todos, até mesmo dos mortos. Escrito por Luciana às 13h45 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ]
Como personagens centrais de uma narrativa, Bentinho e Capitu são sem dúvida, as personagens ficcionais mais fascinantes, intrigantes e complexas já criadas por um escritor. O texto machadiano é sob todos os aspectos, uma brilhante demonstração de como a representação da realidade e o mundo é muitas vezes mais real que a própria realidade. Capitu tem uma complexidade psicológica explícita e enigmática, pois o narrador a envolve em uma densa camada de reticências e dúvidas que a impede de se manifestar. Será ela dissimulada? Fingida? Uma moça dominada ou dominadora? São respostas que não podem ser dadas ao leitor, pois um dos aspectos centrais da narrativa é a impossibilidade de Bentinho conhecer a verdade sobre os fatos e os seres. Assim, há uma ambigüidade da narrativa, fazendo Dom Casmurro o romance da dúvida, da incerteza permanente. O objetivo desse romance machadiano talvez seja demonstrar como somos vítimas de nossas vozes interiores e de nossa própria consciência. Também do conflito entre a aparência e a essência da condição humana. A verdade, neste caso não é objetiva aos olhos do narrador-protagonista. Lembrei-me agora daquele ditado: “nem tudo que reluz é ouro”. Assim, o que é apresentado como verdade pode não passar de um engano, de um trágico equívoco, de uma ilusão, de uma intuição “furada”. Para a pergunta: Capitu traiu Bentinho? É inútil, portanto, respondê-la, uma vez que todas as testemunhas que dariam fim à angústia para nós, leitores estão mortas. Sem dúvida nenhuma, esse é um clássico permanente e inquestionável de nossa literatura. Curiosidade a parte, a Folha de S. Paulo um tempo atrás promoveu um verdadeiro Tribunal com advogados, juiz, jurados sobre essa questão da traição de Capitu e ironicamente ela foi absolvida por maioria absoluta. É isso que é o “charme”, a genialidade da obra: significados múltiplos, pontos de vista conflitantes e várias interpretações para a mesma leitura. Falei semana passada sobre o Centenário da morte de Machado de Assis para uma sala do 3º Ensino Médio da Rede Estadual. Contei-lhes um pouco sobre a vida e obra de Machado e ao final da aula, para minha alegria, a maioria procurou a biblioteca e retirou para ler o livro Dom Casmurro. Escrito por Luciana às 13h45 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Por que ler clássicos? Um clássico é aquele livro que não esquecemos, mesmo que lido há muito tempo. É o livro que vem à tona toda vez que alguém menciona sobre uma personagem ou passagem. É aquele livro que encontramos outro significado, outra descoberta toda vez que o relemos. É o livro que dá emoção toda vez que lido ou mencionado, bem como através do nosso amadurecimento como pessoa, o livro também "amadurece" de certa forma. É o livro que se "devora" com prazer! Não é imposto! É conquistado o direito de lê-lo. Calvino apresenta quatorze "propostas de definição" para os clássicos, mas, no final do artigo que batiza o livro, diz que deveria reescrevê-lo "para que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque 'servem' para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos". Bloom, um dos mais respeitados e polêmicos críticos literários em atividade, é um pouco mais pretensioso. Suas análises de contos, poemas, romances e peças teatrais têm o objetivo de "ensinar a ler". O que une Bloom a Calvino, no entanto, é a negação de um caráter utilitarista para os clássicos e, em um sentido mais amplo, para a literatura. "O prazer da leitura é pessoal, não social", diz Blom e continua, "Não se consegue melhorar - diretamente - as condições de vida de alguém apenas tornando-se um leitor mais competente. Sou cético com relação à expectativa tradicional de que o bem-estar social possa ser promovido a partir do aumento da capacidade de imaginação das pessoas, e desconfio de qualquer argumentação que associe o prazer da leitura solitária ao bem público." Um de seus "princípios" para o "resgate da leitura" é o de "não tentar melhorar o caráter do vizinho, nem da vizinhança, pelo que lemos ou de como o fazemos. O auto-aperfeiçoamento é projeto suficientemente grandioso para ocupar a mente e o espírito". "Lemos, intensamente, por várias razões, a maioria das quais conhecidas: porque, na vida real, não temos condições de 'conhecer' tantas pessoas, com tanta intimidade; porque precisamos nos conhecer melhor; porque necessitamos de conhecimento, não apenas de terceiros e de nós mesmos, mas das coisas da vida. Leia plenamente, não para acreditar, nem para concordar, tampouco para refutar, mas para buscar empatia com a natureza que escreve e lê", propõe Bloom. O clássico é aquele livro cujos efeitos não se esgotam nem na primeira, nem na segunda, nem na terceira leitura, e por isso sempre pode ser relido e o que é feito com nosso amadurecimento como leitor. Mas a leitura escolar compulsória, muitas vezes com base em listas de obras exigidas por vestibulares, pode contribuir para afastar o leitor, em vez de aproximá-lo, além de reduzir o espectro de obras a conhecer. Em minha opinião, se a escola pretende formar pessoas criativas, precisa dar a ler, contar por que é bom, mostrar quem leu, oferecer possibilidades e instigar comparações, o que depende de professores familiarizados com a leitura e o seu processo. A importância de se ler os clássicos é a mesma de se ler, eventualmente, títulos das listas dos mais vendidos: experimentar o fenômeno literário na sua maior abrangência possível, comparar, observar, formular o próprio juízo crítico, inclusive para ter condições de diferenciar o que corresponde puramente a um gosto pessoal, momentâneo, sujeito a ingerências que se distanciam da experiência estética, até a percepção do fascínio próprio de uma experiência estética que pode passar longe da preferência puramente pessoal, ditada pelo momento, pelo estado de espírito, ou seja lá o que for. Clássico é aquele que se relê permanentemente, e não só aprendemos mais a cada leitura, como também temos mais prazer. É uma descoberta. Quanto mais ela for estimulada de forma aberta e democrática, melhor. É preciso oferecer coisas objetivas para que as pessoas façam as suas descobertas.
De volta então a Ítalo Calvino, que cita um trecho do escritor Emile Cioran (1911-1995): "Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. 'Para que lhe servirá?', perguntaram-lhe. 'Para aprender esta ária antes de morrer'". Escrito por Luciana às 12h02 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ]
Seguindo a linha de Central do Brasil e Abril Despedaçado, Walter Salles novamente esbanja talento na arte cinematográfica. Acho que é o melhor diretor que recruta seus atores, sem experiência para o estrelato. A naturalidade dos diálogos, da composição das personagens é algo realmente extraordinário. Parece que eles estão há anos no ofício. Retratar a cidade de São Paulo, tal como ela é, não é tarefa fácil. Filmado na Cidade Líder, periferia da zona Leste da Capital, retrata mesclando ficção e documentário, a vida de uma família sem o chefe patriarcal. Quatro filhos e uma mãe grávida do seu quinto, aos 42 anos de idade. Cada um tem uma história para revelar. E essas histórias de vida se entrelaçam: um tem o sonho de ser jogador de futebol (aliás, futebol é a marca chamativa da narração), mas a idade é o seu maior entrave, 18 anos. Outro é um crente fervoroso (mostra sua vocação, mas não sua vontade de ser correto) que trabalha num posto de gasolina. Um motoboy (que flerta com a criminalidade) que já tem um filho e luta para pagar sua moto e a pensão do filho. E por fim, o garoto, Reginaldo, que sonha em conhecer seu pai, um motorista de ônibus. A mãe, atuação belíssima de Sandra Corveloni, empregada doméstica, “doente” pelo Corinthias e o futebol que criou sozinha seus quatro filhos. Existem cenas que não serão esquecidas tão cedo! Cenas da vida real, cenas do cotidiano de uma selva de pedra, como São Paulo. A unidade de interpretações deste elenco é genial e primoroso. O filme mostra a periferia de qualquer grande cidade. Do lado que não vemos nos jornais e nas estatísticas: muitos jovens buscam se reinventar para não ceder à violência do tráfico e da criminalidade. A pobreza, a falta de oportunidades não são motivos para que esta família disfuncional caia na marginalidade e perca sua identidade. Em momentos assim é possível dizer que Linha de Passe captura a realidade sem julgamentos. E essa é a mágica da coisa, nos fazer olhar para a vida de um jeito ao mesmo tempo limpo e poético, de um jeito que não tínhamos reparado antes. Ponto para Walter Salles que me emocionou novamente! Elenco: Vinícius de Oliveira (Dario), João Baldasserini (Dênis), José Geraldo Rodrigues (Dinho), Kaique de Jesus Santos (Reginaldo), Sandra Corveloni (Cleuza). Escrito por Luciana às 11h39 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Três vertentes do Teatro paulistano Peça teatral: Um certo Van Gogh Local: Teatro Folha/ São Paulo
Peça teatral: Imperador e Galileu Local: Sesc Santana/São Paulo Peça teatral: A Senhora dos Afogados Local: Sesc Consolação/São Paulo Três vertentes do nosso teatro: Sou apaixonada pelo teatro desde sempre. Vejo muitas peças, já fiz um curso livre de teatro no velho e bom TUSP e assim tenho uma visão completamente crítica sobre essa Arte. A primeira peça: Um certo Van Gogh, tão somente a vi, porque ganhei os ingressos, uma vez que não é uma peça que me chama a atenção. No elenco, Bruno Gagliasso e alguns globais de pouca expressão. Não é o fato de se uma peça protagonizada por um global. Pelo contrário, estou maluca para ver Wagner Moura em ação no teatro. Mas é o fato de ver no palco um ator global que não tem diferença entre a TV e o teatro. É notório que atores que fazem TV muitas vezes não devem se aventurar nas águas plácidas do santo palco. Conta a vida do grande pintor e da vida controversa de Vicente Van Gogh. Um rapaz que no século XXI se sente atraído por causa de várias coincidências da vida do gênio com a sua vida. É confuso e também bem previsível. O bom desta peça é o cenário. O roteiro e os atores deixam a desejar. Já Imperador e Galileu protagonizado por Caco Ciocler, trás o texto impecável de HENRIK IBSEN. O texto, aliás, fiel aos acontecimentos verídicos daquela época do Imperador Imperador Juliano, que tentou destruir a igreja católica como religião oficial do império romano e resgatar os cultos pagãos. Impecável direção de Sérgio Ferrara, pupilo de Antunes Filho, o elenco afinadíssimo, com um texto que beira à dramaticidade total, mas com toques humorísticos de Caco Ciocler, sem se esquecer da cenografia impecável e do figurino apropriadíssimo para a época relatada. A peça foi traduzida por Fernando Paz e adaptada pelo próprio Sérgio Ferrara. Inédita no Brasil! E para terminar: A Senhora dos Afogados de Antunes Filho. Adaptação dele mesmo para a peça de Nelson Rodrigues. Tenho que confessar que não gosto muito de Nelson Rodrigues, devido sua temática sempre densa e ardilosa. Seus personagens são dotados de uma “doença”, de uma vontade grotesca de contrariar tudo e todos, nos quesitos como família, sexualidade e por aí vai. Mas fui ver essa peça, porque é dirigida pelo gigantesco Antunes Filho, no qual tenho uma enorme admiração pelo seu trabalho e não a maneira pela qual ele conduz seus atores. A Senhora dos Afogados foi escrito por Nelson Rodrigues em 1947. O percurso da mulher que assassina as irmãs pela ambição de ser a filha única e mulher de seu pai, já que empurra o próprio noivo para a mãe, que também morre, tem como desfecho a impotência. Misael, o pai, morre no colo de Moema, a filha. Ela evita acariciar o corpo. As mãos dela não têm mais utilidade. Matou tudo e todos para ter e não teve, não conseguiu, falhou. “Aqui, a tragédia grega pode até ser um antimodelo para mim: acho que encontrei o equilíbrio entre um drama que às vezes beira o trágico, mas se permite as estocadas de humor. O Nelson Rodrigues tem um pouco o espírito de porco, ele vai e cutuca, mas, se bobear, vira dramalhão", diz o diretor. Elenco afinado, cenário sem luxo, mas no ponto, figurino apropriado para a época e uma história de arrepiar é, portanto, o segredo de sucesso de Antunes. Ponto. Escrito por Luciana às 16h32 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O Ensaio sobre a cegueira - o filme (Blindness) Para mim, o filme mais esperado do ano! Ansiosa por ver na telona a grande obra de Saramago, um dos mais extraordinários livros que já li, e ao mesmo tempo receosa, porque o filme nunca retrata fielmente as obras literárias. O mais curioso é que Ensaio sobre a Cegueira era justamente o filme que Meirelles queria fazer, no começo de sua carreira. Ele tentou adquirir os direitos do livro, mas Saramago não quis saber de vendê-los. Num primeiro momento, o escritor português chegou a dizer que seu romance era infilmável e que transformá-lo em filme iria contra o próprio conceito do Ensaio, porque o cinema, arte audiovisual, mostra e, portanto, mata a imaginação. Dez anos depois, Ensaio sobre a Cegueira abriu o Festival de Cannes deste ano e, na seqüência, Meirelles, cheio de apreensão, foi exibi-lo para o escritor. Saramago adorou e até as mudanças que Meirelles ainda queria fazer, para aprimorar seu filme, foram desestimuladas por ele. Enquanto os anúncios de publicidade e trailers rodavam, eu não conseguia pensar em outra coisa senão no médico, na expressão que eu criei pra ele no momento da cegueira (e se ela seria satisfeita por Mark Rufallo), na rapariga, no sanatório, nas camaratas, na mulher do médico, nas ruas da cidade, na maldade das pessoas que voavam na minha mente como peças que agora pudessem, finalmente, se encaixar. O filme começou os semáforos justamente como eu imaginava as cores, o barulho. Meus olhos tiveram que se fechar e imaginar, ouvindo os carros, parecia uma realidade. De repente: o primeiro cegou, segundo, terceiro, quarta, quinto, sexto, sétima, oitava... foram cegando. Os meus olhos não desgrudavam da tela branca, na maior parte do tempo. Tudo muito claro, como um mar de leite. Rapidamente a cegueira branca toma conta da cidade e minha imaginação, bem como a lembrança de cada passagem da escrita de Saramago vem como um relâmpago! É a cegueira metafórica que nos perturba na tela. Não se trata, portanto, de uma história, mas de uma reflexão a respeito do que realmente somos, em essência, e não do que pensamos que somos - e isso inclui um nome e um endereço, espécie de rótulos com os quais nos reconhecemos e somos reconhecidos. No mundo da cegueira coletiva, esses rótulos são irrelevantes. Escrito pelo canadense Don McKellar, este Ensaio Sobre a Cegueira representa, neste sentido, a mais promissora oportunidade para que Meirelles desenvolva uma ampla alegoria sobre os rumos que a sociedade ocidental moderna vem tomando – e a distopia aqui apresentada surge como conseqüência de uma misteriosa epidemia de “cegueira branca” que imediatamente mergulha um país não identificado (todos falam inglês, mas o rádio traz um locutor português) no mais completo caos. Aqueles personagens (e todos nós, na realidade) já viviam num estado de cegueira antes mesmo de perderem a visão, o filme, assim como o livro, sugere que somente ao perdermos a capacidade do pré-julgamento nos tornamos realmente capazes de estabelecer uma conexão verdadeira com o mundo ao nosso redor – e mais: que a única cura possível para este isolamento auto-imposto (a “cegueira” de Saramago) é o reconhecimento inequívoco de que, afinal, dependemos profundamente uns dos outros e que enxergar de fato o próximo é, acima de tudo, um exercício de tolerância e amor. Aliás, seguindo esta lógica temática (e, claro, as intenções alegóricas da narrativa), é mais do que natural que os personagens não tenham nome, sendo identificados apenas por suas profissões (o Médico, o Contador), por suas relações mais significativas (a Mulher do Médico) ou por suas características mais marcantes (o Garoto Estrábico- que no filme não é estrábico). E o mais engraçado é que justamente assim que costumamos definir, de maneira simplista e injusta, aqueles que nos cercam?!? Em certo momento do filme, que não ocorre no livro, um dos inúmeros personagens sem visão reclama, ressentido, dos abusos cometidos pelo inescrupuloso Rei da Camarata 3 e comenta, com o companheiro à sua frente, que o sujeito provavelmente é negro, escancarando seu odioso racismo – e, pior, sem se dar conta de que, ao contrário do latino e branco vilão, é seu interlocutor e confidente quem possui o tom de pele que ele tanto parece desprezar. A “sacada” desta cena, além do inteligente uso da ironia dramática, reside na força de sua alegoria, pois, nesta sociedade terrivelmente imperfeita em que vivemos, é justamente nossa visão (literal e metafórica) que muitas vezes nos cega para o que realmente importa, distorcendo nossas opiniões em função de preconceitos estúpidos que, ao manterem nosso foco no superficial (a cor da pele, a orientação sexual, a etnia), impedem que enxerguemos o real valor daqueles que nos cercam. A estratégia visual concebida por Meirelles ao lado do diretor de fotografia César Charlone, seu parceiro desde Cidade de Deus, cabe destacar a coragem da dupla ao investir numa abordagem que, ao buscar capturar a confusão dos sentidos dos personagens, poderia facilmente afastar o espectador, mas felizmente, não ocorre. Assim, desde sua primeira cena, Ensaio Sobre a Cegueira adota uma câmera oscilante que exibe foco incerto e cria composições assimétricas que muitas vezes cortam atores e cenários pela metade, surpreendendo-nos também ao apostar em reflexos (muitos destes, fragmentados) que tornam a experiência ainda mais inquietante. Mas não é só: adotando uma fotografia que combina a superexposição e que beira o preto-e-branco em alguns momentos, o filme não só salienta a tristeza e a decadência de um mundo em colapso como ainda remete à descrição da cegueira branca presente no livro: “como se encontrasse mergulhado de olhos abertos num mar de leite”. Assim, quando o Ladrão perde a visão, Meirelles usa o farol alto de um carro que passa como início de uma explosão de luz que simula a experiência do personagem, num recurso que se repetirá várias vezes ao longo da projeção. A Mulher do Médico (Julianne Moore) é a protagonista total do filme. Ao observarmos o olhar distante da Mulher do Médico ao beber vinho enquanto lava os pratos, no início da película podemos notar um tédio sutil que talvez indique uma insatisfação significativa com relação à sua vida de dona-de-casa – e isto torna ainda mais complexa sua trajetória ao longo da projeção, já que ela se torna figura fundamental não só na vida do marido, mas também de um grande grupo de pessoas. Já o Médico vivido por Mark Ruffalo é de uma fragilidade que dá pena. Ruffalo, aliás, não era a primeira opção do diretor. Meirelles queria Sean Penn, que não aceitou. Foi melhor – Penn talvez não desse essa fragilidade ao personagem e “competiria”o brilho com Moore. Além disso, infelizmente, o Velho da Venda Preta jamais consegue se tornar tão rico e interessante quanto os demais integrantes do núcleo principal, o que é uma pena, considerando-se o talento de Glover e a beleza do personagem – e os dois momentos em que ele funciona como uma espécie de narrador se revela os mais frustrantes da narrativa, já que ele se limita a verbalizar o que o espectador pode ver claramente na tela. E também, como estas narrações surgem jogadas ao acaso, acabam se revelando ilógicas e gratuitas, além de totalmente descartáveis (ao que parece, numa versão anterior elas cruzavam toda a obra). O mais triste é constatar que as duas seqüências em questão provavelmente se revelariam bem mais impactantes e mesmo poéticas se surgissem silenciosas, permitindo que interpretássemos sozinhos as expressões dos personagens e os quadros evocativos criados pelo diretor. Em alguns momentos, o filme foi melhor que a minha imaginação, como por exemplos: a cena em que um grupo de mulheres lava silenciosamente o corpo de uma companheira caída é particularmente eficaz e emocionante, assumindo um tom quase ritualístico, religioso. Da mesma forma, as duas cenas que trazem um verdadeiro ritual de purificação pela chuva funcionam como raros instantes de respiro numa narrativa dominada pela angústia, representando, também, pontos importantes do reencontro que marca uma nova comunhão entre aquelas pessoas e o mundo (a Natureza, a Vida, o Próximo) que as cerca. Finalmente, Meirelles é especialmente feliz ao retratar a transa de dois personagens, quando inclui, em meio aos gemidos de êxtase do casal, planos subjetivos que revelam o mar de luz no qual este se encontra e que confere um tom curiosamente “romântico” ao ato – o que se contrapõe ao desespero quase animalesco e aos movimentos desajeitados que testemunhamos quando finalmente vemos, à distância, o que está acontecendo. Aliás, o diretor cria também outro importante contraste ao estabelecer um choque entre a claridade desta transa e a escuridão infernal que cobre o estupro coletivo que virá a seguir. Como também ponto positivo para a imitação na canção de Steve Wonder, por Gael García Bernal (Rei da Camarata 3) e a brincadeira que ele faz (50 mil dólares de direitos autorais). Deu um toque de humor e foi espontâneo num filme tão denso. Meirelles contou em entrevista que Bernal imitou o cantor numa improvisação. Mas o melhor mesmo foi a viagem sensorial que o Meirelles nos proporcionou apresentando um filme que vai do total branco a total escuridão, nos dando apenas o som como elemento imaginativo. Porém há muitos momentos que o filme deixa a desejar para os que leram o livro, como por exemplo, ao entrar na ambulância, a Mulher do Médico no filme retratou uma mulher dedicida e ponto. Faltou o desespero que o livro relata. Achei estranho não ter cenas como a velha vizinha ou quando a mulher do médico volta para o supermercado. O Médico quando transa com a rapariga dos óculos escuros - foi absurdo a alteração de ordem dos fatos, por que no livro primeiro há o anúncio de que os homens da terceira camarata querem as mulheres e depois o médico transa com a rapariga. Essa alteração de ordem causa mudança na interpretação de muitos espectadores ao fato ocorrido. Acho até que é mais complexo que o livro e o filme relatam. Está envolto num conflito de sentimentos devido ao fato de ter que entregar assim a sua mulher sem muito poder fazer. Essa passagem é profundíssima, e dificílima de entender o que se passa com o Médico e o jeito que passou no filme fez ficar muito superficial. Outra passagem que eu não gostei é novamente a inversão de ordem dos fatos, o fim do filme é absurdamente rápido, dando uns 10 minutos para as últimas 100 páginas da obra. Meirelles inverte a cena da igreja (para os que leram o livro – a cena é curtíssima e “jogada”), corta pedaços importantes, como a reunião dos crentes numa praça, a relação sentimental que ocorre entre a rapariga dos óculos escuros e o velho da venda preta (fica “jogada” e sem sentido no filme) e distorce o acontecimento no mercado. Outro fato que me chamou a atenção é que as personagens no filme nem pareciam sujas, pareciam sempre limpas, não passava a idéia de sujeira, degradação que tem no livro, nem a cidade é tão suja como eu imaginava. No filme a cidade é suja de lixo, em sacos de lixo, todos embaladinhos e bonitinhos. Realmente faltou a podridão e excrementos nas ruas. Faltou mostrar a degradação do ser humano perante a sociedade. Faltaram também as frases célebres do livro: “provavelmente, só num mundo de cegos, as coisas serão o que verdadeiramente são.”, “se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.” e por aí vai. Outro fato para se registrar é o Cão das Lágrimas, personagem favorito de Saramago que nas últimas 100 páginas do livro tem um significado latente. No filme, Meirelles retratou-o como um cão bem bonitinho, mas não fez nenhuma menção ao Cão das Lágrimas, só que o mesmo lambe as lágrimas da Mulher do Médico. Ficou muito a desejar. Aliás, a crítica que Saramago fez ao filme foi essa. O cão das lágrimas do livro não era tão bonitinho assim e nem como ele relatou no livro! Mesmo no maior festival de cinema do mundo, independentemente de gostar ou não de Ensaio sobre a Cegueira, os críticos reconheceram o domínio de Meirelles sobre o cinema. Ele próprio admite que contar uma história não é mais problema, e tem currículo para provar que isso é verdade - Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e Ensaio, três adaptações de livros (de Paulo Lins, John Le Carré e Saramago). O prestígio internacional favoreceu pontos importantes. Se tivesse feito Ensaio quando o livro surgiu, Meirelles teria feito um filme brasileiro, falado em português, com recursos mais modestos. Não teria Julianne Moore nem Mark Ruffalo nem Danny Glover nem Alice Braga no elenco. O filme custou 25 milhões de dólares. É um filme e como tal ele deve ser refletido. Se entrassem todas as "cenas" do livro, provavelmente seria uma película de 5 ou 6 horas. Acho que foi na medida certa, e nessa medida, se manteve fiel ao livro. Ponto. Escrito por Luciana às 19h13 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] MACHADO DE ASSIS: MAS ESSE CAPÍTULO NÃO É SÉRIO? Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no morro do Livramento, no Rio. Mulato, canhoto, passou a infância como agregado de uma família mais abastada, experiência que ecoou posteriormente em sua obra. Intelectual autodidata teve ascensão social e entrou para o cânone da literatura. Cem anos após sua morte, o Museu da Língua Portuguesa de SP o homenageia com uma exposição: “Machado de Assis: Mas esse capítulo não é sério?” Dividida em 11 capítulos, a mostra sobre Machado de Assis reúne sala de música do século 19, análise crítica, manuscritos e livros . O eixo central de "Machado de Assis: Mas Este Capítulo Não É Sério?" é o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas". O visitante-leitor recebe na entrada um livreto com 50 páginas, em forma de um charmoso almanaque. Espécie de guia para a mostra, ele trará dez contos de Machado, que variam de exemplar a exemplar. A exposição é dividida em capítulos cujos nomes se referem à obra de Machado. "Um Homem Célebre", o prólogo, reproduz uma sala do século 19, com um piano de cauda, de onde se ouve uma trilha sonora machadiana, com polcas, maxixes, Villa-Lobos etc. Mais adiante, "Meu Caro Crítico" traz a evolução da crítica à sua obra, em 16 excertos. Desde contemporâneos do autor, como Sílvio Romero (1851-1914) e José Veríssimo (1857-1916), até os anos 60 e adiante, em que se destacam as análises da brasilianista americana Helen Caldwell e dos brasileiros Roberto Schwarz e Alfredo Bosi. O último capítulo, "Delyrios", traz uma imagem do cortejo fúnebre de Machado, morto em 1908. Em ordem decrescente, apresenta uma cronologia, com momentos como a fundação da ABL até chegar ao que o curador chama de "ferida" racial em sua vida: as menções à sua ascendência negra. Aqui estão contrapostos dois textos: um artigo de José Veríssimo, que o descrevia como um mulato "grego", "pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida, pela euritmia da sua obra"; e uma carta de Joaquim Nabuco, contrariado com a palavra "mulato": "Para mim [Machado] era um branco (...); quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego". Terminado o percurso da exposição, o museu abriga o "Largo do Machado", com 400 livros que o público pode ler em poltronas. Bem no clima de visitante-leitor proposto. Essa exposição é destinada tanto para os leitores vorazes como aqueles que estão iniciando. Serve exatamente para desmistificar o grande escritor, quiçá o melhor escritor brasileiro de todos os tempos, dizem os críticos. Mas, não posso deixar de mencionar também, o esplêndido Guimarães Rosa. EXPOSICÃO "Mas este capítulo não é sério" 15 de Julho a 26 de Outubro de 2008 De terça a domingo das 10h às 17h R$ 2,00. Aos sábados, grátis. Informações: http://www.museulinguaportuguesa.org.brEscrito por Luciana às 12h06 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] 20ª Bienal do Livro Com 75 mil metros quadrados, 350 expositores e 4 mil lançamentos, a 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo - que aconteceu até 24 de agosto -se estabelece como a maior feira de livros da América Latina e a terceira maior do mundo, ficando atrás apenas dos eventos do mesmo tipo sediados na Alemanha e nos Estados Unidos. O tamanho físico, no entanto, não condiz com sua relevância no panorama cultural. Nesta edição, são poucos os autores de peso convidados a lançar livros ou a participar de debates. Este mérito, nos últimos seis anos, ficou a cargo da Festa Literária de Parati, que já trouxe escritores consagrados como J.M. Coetzee, Ian McEwan e Don Delillo. A principal vocação da Bienal hoje é a de grande feira de negócios. Mas nem sempre foi assim. Criada em 1970 com o objetivo de "democratizar o livro", a primeira edição aconteceu no Pavilhão da Fundação Bienal, no Parque do Ibirapuera (local que a abrigaria até 1994). Com pouco estardalhaço midiático, o evento apostava na aproximação entre os escritores e o público por meio de tardes de autógrafos e palestras. Em sua estréia, a feira teve como convidados importantes autores nacionais e internacionais, como o escritor argentino Jorge Luis Borges, o crítico alemão Anatol Rosenfeld e o jornalista brasileiro Claudio Abramo. Até sua terceira edição, a Bienal não comercializava livros em seus estandes, apenas os expunha ao público. Era mesmo como uma vitrine da literatura da época. Em 1976, essa característica mudou e os exemplares começaram a ser vendidos, mas mantinha-se a postura de convidar grandes autores para o debate literário. Visitaram o Pavilhão do Ibirapuera Jorge Amado, Isabel Allende, Gabriel García Marquez, Juan Rulfo e Will Self. Na década de 90, foi tamanho o aumento do público visitante e do número de editoras participantes, que os estandes tiveram de migrar para o Pavilhão do Expo Center Norte, na Vila Guilherme, até chegar à atual sede, no Parque de Exposições Anhembi, local reconhecidamente voltado aos negócios. A partir daí, o crescimento da Bienal deixou mais evidente seu caráter de feira de negócios, apostando num modelo de comércio massivo. A participação de autores consagrados também passou a ficar em segundo plano e, na lista de convidados para as tardes de autógrafos, começaram a figurar cada vez mais celebridades, como a apresentadora Ana Maria Braga e o ator Miguel Falabella. Neste ano, com livros em promoção, desova de estoques e grande apelo ao público infanto-juvenil (a estimativa é que, pelo menos, 180 mil estudantes organizados em grupos escolares visitem a feira) espera-se que 800 mil pessoas passem pela bienal. O número de visitantes, porém, não necessariamente reflete em quantidade de livros comercializados. "Mesmo com vendas boas, como está acontecendo nesse ano, os lucros não superam os gastos com a montagem de estande, que são muito altos", conta a diretora da Record, Luciana Villas-Boas. A baixa comercialização levou o grupo editorial Ediouro a instalar no Anhembi um estande puramente institucional, que não vende livros, apenas faz propaganda da marca. Paulo Roberto Pires, diretor editorial da marca explica a postura: "Vendagem na Bienal sempre foi algo secundário, nunca conseguimos lucros fabulosos. O que importa nesse evento é evidenciar a marca editorial". Se o debate cultural é fraco e os lucros são baixos, para que serve um evento desse porte? Para Luciana Villas-Boas, a Bienal é importante no mercado editorial "porque consolida as marcas e proporciona a reunião de todas as pontas da indústria do livro: produtores, distribuidores e consumidores". O diretor executivo da Câmara Brasileira do Livro, Eduardo Mendes, ainda completa: "A Bienal, assim como outros eventos literários como a Flip, criam um movimento de sinergia para que a questão do livro e da leitura entre na pauta de discussão da imprensa e dos governos, o que é sempre positivo para esse mercado". Revista Bravo Enfim, caros leitores, todos os anos, não me importando com essa vertente de tão somente a comercialização de livros e poucos eventos culturais, fui prestigiar a Bienal do Livro e esse ano não foi diferente. Cheguei à última sexta- feira do evento, quando os portões de abriram para o público. Vi um cenário super diferente e interessante: várias escolas municipais e estaduais passeando entre as ruas da Bienal. Crianças, adolescentes, professores e guias interagindo com os livros. Sim, concordo com o fato que se cria pauta para discussão da importância na leitura, de como é essencial ler. Ler é preciso e urgente em nosso país! Tanto é que os livros infantis e juvenis tinham o preço de R$ 3,50 (até mesmo os livros de Ruth Rocha). Fora as obras que já caíram em domínio público (clássicos de Machado de Assis, José de Alencar...). Comercial ou não, a Bienal é um importante evento cultural no calendário brasileiro. “Um país se faz com homens e livros”, Monteiro Lobato. Ponto. Escrito por Luciana às 20h56 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Memórias da Emília, de Monteiro Lobato (...) A vida Senhor Visconde, é um pisca - pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. É portanto um pisca-pisca. O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos para o teto. Emília riu-se. Está vendo como é filosófica a minha idéia? (...) A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim, pisca pela última vez e morre. - E depois que morre? - perguntou o Visconde. - Depois que morre, vira hipótese. É ou não é? Excerto de Memórias da Emília, de Monteiro Lobato Escrito por Luciana às 18h05 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Caros leitores, Pausa para reflexão: "A arte existe para que a realidade não nos destrua" Nietzsche Escrito por Luciana às 19h47 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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